Método · framework aberto

Cinco portões. Cada um com um critério de morte.

A maioria das nossas teses morre, de propósito. O valor de um venture studio não está em ter sorte com uma ideia, está em ter um processo repetível que descarta as ruins cedo e barato, e protege o capital para as que sobrevivem. Aqui está o nosso, por inteiro.


Estúdios sérios não escondem que matam a maior parte do que originam. O Pioneer Square Labs publica abertamente que descarta a grande maioria das ideias que avalia. Tratamos isso como a métrica principal, não como vergonha. Matar cedo é o produto.

O processo abaixo transforma intuição de fundador em decisão com critério. Cada gate tem uma pergunta única, um critério explícito de aprovação e, mais importante, uma definição clara do que mata a tese ali. Nada avança porque alguém se apaixonou.

A esteira

Os cinco portões, por dentro.

Da primeira evidência ao nascimento da empresa. Quanto mais fundo o gate, mais maduro, e mais difícil de passar.

01

Sinal

Existe uma dor recorrente, cara e mal resolvida, com evidência fora da nossa cabeça?

Passa se

Pelo menos 5 relatos independentes da mesma dor, mais um número que prove frequência ou custo. Sem isso, é palpite.

Morre se

Morre se a dor só existe na nossa imaginação, se é episódica, ou se quem sente não paga para resolver.

Raiz teórica: Jobs-to-Be-Done: as pessoas contratam produtos para resolver uma tarefa. Sem tarefa real e recorrente, não há contrato. — Christensen, Competing Against Luck

02

Tese

Para quem é, que dor resolve, como captura valor, e por que agora?

Passa se

Uma frase fecha: público, dor, mecanismo de captura e a janela que torna isso possível hoje (regulação, tecnologia, comportamento).

Morre se

Morre se não há por que agora, se o público é todo mundo, ou se a captura de valor depende de virar líder de mercado para dar lucro.

Raiz teórica: Disrupção começa onde o incumbente é fraco ou ausente, não no ataque frontal. A tese tem que nascer numa borda real. — Christensen, The Innovator's Dilemma

03

Validação

A evidência aguenta um experimento barato, antes de qualquer linha de código?

Passa se

Um teste de demanda real (pré-venda, lista paga, carta de intenção, concierge) com meta numérica definida antes de rodar.

Morre se

Morre se o interesse só aparece quando é de graça, se ninguém repete, ou se a meta combinada antes não bate.

Raiz teórica: Desenvolvimento de clientes e Lean Startup: sair do prédio, testar a hipótese mais arriscada primeiro, com o mínimo de construção. — Blank, Four Steps; Ries, Lean Startup

04

Construção

Dá para construir reaproveitando a infraestrutura que já temos?

Passa se

Cerca de 60% do que sobe no dia 1 vem da prateleira comum (auth, billing, dados, agentes, deploy). O novo é só o que é tese.

Morre se

Morre se exige reconstruir tudo do zero, ou se o diferencial está na infra comum em vez de estar na tese.

Raiz teórica: Modelo de venture studio: o ativo composto é a infraestrutura e o método reaproveitados, não cada empresa isolada. — Pioneer Square Labs, High Alpha, Atomic

05

Vida ou morte

Há sinal de ajuste produto-mercado suficiente para virar empresa autônoma?

Passa se

Retenção e uso que se sustentam sem empurrão, e um caminho de receita que não depende de subsídio nosso eterno.

Morre se

Morre, é fundida, ou é arquivada com aprendizado registrado. Empresa só nasce com evidência de que anda sozinha.

Raiz teórica: Product/market fit: quando você sente o mercado puxando o produto. Antes disso, escalar é queimar capital. — Andreessen, sobre PMF

O artefato

Um kill memo de verdade.

Toda tese que morre vira um documento de uma página. Não é burocracia, é o que torna o aprendizado reaproveitável pela próxima tese. Abaixo, o formato (exemplo representativo).

Kill Memo

Agenda para salões de bairro

Morto no Gate 03

A tese

App de agendamento e lembrete por WhatsApp para salões e barbearias pequenas, cobrando mensalidade baixa.

A dor era real?

Sim. No-show e agenda no caderno são dores frequentes e caras. Passou no Gate 01 e 02 com folga.

O experimento

Pré-venda concierge: 40 salões abordados, meta combinada antes de 12 pagando R$49 antecipado para entrar na lista.

Por que morreu

Só 3 pagaram. Os donos queriam, mas já usavam de graça a agenda do próprio WhatsApp e Google. A dor existia; a disposição a pagar, não. A captura de valor falhou.

O que ficou para a próxima tese

Dor real não é o mesmo que vai pagar. Em serviços locais, o gratuito bom o bastante é o concorrente real. Reaproveitado na tese da Unclic, que ataca gestão, não só agenda, onde o caderno realmente custa dinheiro.

Onde a IA entra

Velocidade na seletividade, não no lançamento.

A IA não afrouxa nenhum dos critérios acima. Ela comprime o tempo entre o sinal e a evidência. Agentes varrem dores recorrentes, montam o material de validação, simulam objeções e organizam o que cada experimento ensinou. O resultado é simples: passamos por mais teses no mesmo tempo, e matamos as ruins mais rápido.

O julgamento final, o que vira empresa, continua sendo humano, com critério escrito. A máquina acelera o descarte; ela não decide o que merece existir.

O método produziu um produto em produção.

O Stricto saiu desta esteira. É a prova de que a fábrica anda, não uma promessa.